Arquivos para o mês de: janeiro, 2011

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Dedicado a (e inspirado por) Beatriz
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Mais Uma Vez (Pela Última Vez)

I – Festa ao Luar

Já era o quinto drink que Paulo tomava naquela noite. Ou sexto. Aquela altura do campeonato ele já não sabia ao certo. Tudo o que parecia importar era o fato de estar com Duda.
A Garota.
Era numa noite de lua cheia, infernalmente abafada e perfeita em uma festa de música duvidosa à beira-mar.
Beijaram-se sob a luz do luar.
“O mundo é perfeito”, Paulo imaginou.

 

II – E o Fim de Semana?

Todo começo de ano é a mesma coisa. Promessas feitas para serem cumpridas nos próximos trezentos e sessenta compridos dias, resoluções, muita motivação. Com Paulo não foi diferente desta vez.

Trabalhava numa agência de publicidade em São Paulo. Mesmo não sendo paulistano, já vivia há tanto tempo na cidade que já tinha adquirido todos os hábitos e costumes da capital-correria.
Primeira semana de janeiro. Começo de ano. Era verão, Paulo tinha uma folga e dinheiro sobrando.
Coisa rara de acontecer.

-E o fim de semana? No fim de semana eu vou à Praia, João! Dar uma desligada, uma espairecida…
Ele respondeu ao seu amigo – o João – que iria ficar na cidade.
-Praia… Quem me dera… Paulo, faça o favor de trazer uma lembrancinha pro seu amigão aqui. Sabe como é, pra que pelo menos eu sinta como se tivesse ido também. Praia… Como preciso de uma praia, meu Deus…
Paulo riu do amigo e balançou a cabeça em concordância.

As horas pareciam se arrastar e o dia não acabava nunca. Mas já estava tudo certo: mala feita, passagens compradas. Chegando a hora, era só passar no seu apartamento, tomar banho, comer alguma coisa, pegar tudo e ir para o aeroporto.

A Praia o esperava de braços abertos.

 

III – Você Roubou Meus Olhos

Naquela mesma noite, Paulo chegou ao seu destino. Chegou à Praia. Desembarcou e seguiu direto para a pousada onde ficaria hospedado.
“Viajar é um barato!” ele pensou.

Paulo era solteiro, no auge dos seus 27 anos. Adorava viajar, sair com os amigos para as noitadas… Enfim, tudo que um cara solteiro com seus vinte e poucos anos geralmente costuma fazer. Queria mais aproveitar a vida! Era um sujeito carismático, uma pena que a maioria das pessoas só enxergavam a superfície, em duas dimensões e em preto e branco. Era sempre o engraçadinho, bonitinho, que “só falava besteira”.

“Uma pena”, ele pensava, mas no fundo, sabia que essa imagem que ele passava era sua culpa. Culpa dele também era seu problema em manter relacionamentos.Vivia em eternos enrolos, sem nunca de fato ter tido alguma coisa realmente séria.

Esse era o Paulo. Culpado. Culpado. Culpado. Mas, assim como todo mundo, ele só queria amar e ser amado.
Já na pousada, subiu e seguiu para o seu quarto. Arrumou suas coisas por lá, se preparou e foi descobrir o que a Praia tinha.
Na portaria, enturmou-se rapidamente com os outros turistas e entre uma bebida e outra descobriu que haveria uma festa à beira-mar, e que pela empolgação dos colegas de pousada parecia que seria bem divertida (apesar dele não gostar muito do estilo musical que iria ser tocado). Bebeu mais algumas cervejas com os outros e foram andando para o local, que era próximo à pousada.

Já tinha passado algum tempo na festa. Bebeu, conversou com o pessoal, curtiu o visual, bebeu e bebeu. Já estava no clima mas achava que a festa (nem cheia nem vazia) foi ficando chata. Iria beber mais algumas e voltaria para a pousada, descansar para acordar cedo no dia seguinte. Aproveitar o sol, o mar, a vista… Soava como um plano em sua mente.

Foi quando Paulo a viu.
E tudo mudou.

 

IV – 18

Maria Eduarda. Eduarda. Duda. Era como ela se chamava. Destoava completamente das outras garotas daquele lugar, como uma bela rosa em um terreno árido. Lá estava ela, linda, em três dimensões estourando em technicolor, bem na sua frente.

Paulo estava em transe.

Precisava fazer alguma coisa, ou seria como se aquele momento nunca tivesse existido.
E ele fez. Fez aquilo que era o mais natural do seu ser.
Paulo sorriu!

Ela fez cara de ponto de interrogação e se aproximou.
-Por que você está rindo de mim?
Perguntou Duda, mas Paulo ainda não havia descoberto seu nome. Mas descobrira o seu perfume – e Deus – existia alguma coisa melhor que aquilo?
-Não estou rindo de você, e sim da expressão que você fez ao ver sua amiga conversando com aquele cara…
-Aham, sei…
Ela fez uma expressão irônica e sorriu. E o mundo sorriu junto para Paulo. Se dependesse dele, pararia o tempo ali mesmo. Como não tinha meios para fazer isso (empalhar a pobre coitada estava fora de cogitação), tratou de tirar fotos mentais daquele momento – todas que pudesse e o nível alcoólico permitisse. Prosseguiu com a conversa:
-Escuta, você também está com cara de quem tá entediada com essa música…
-É… Eu não curto esse tipo de som. Ainda bem que encontrei alguém com a mesma opinião, não é verdade?

Se apresentaram formalmente e continuaram conversando. O som estava alto. Ele sugeriu que se afastassem um pouco do palco para conversarem melhor. Duda segurou-o pela mão e foram até as mesas que estavam um pouco mais afastadas, onde continuaram a falar, e falar, e falar, animadíssimos. Conversaram primeiro sobre música, perceberam que tinham muito em comum nesse assunto. Ela era jovem, inteligente, esperta, divertida. Paulo era só sorrisos, estava flutuando (talvez a quantidade de bebida tenha atenuado essa sensação).

Lá pelas tantas, a troca de olhares, sorrisos e afagos já denunciava o que viria a seguir.
Beijaram-se.
Pela segunda vez naquela noite, Paulo queria que o tempo parasse…

Ele descobriu que ela morava em outra cidade. No Rio de Janeiro. Ambos tinham consciência que aquilo não tinha sido feito para durar. Ela iria embora. “Como sempre, não é Paulo?” ele pensou. Pegaria o telefone daquela menina de dezoito anos e talvez nunca mais a visse na vida. Talvez ele estivesse empolgado de mais. Mas para Paulo isso pouco importava, pois no final das contas tudo acabava mesmo. O que importava de verdade era aproveitar o momento ao máximo.

E novamente beijaram-se, sorriram, passearam…

 

V – Dipirona Sódica

O dia seguinte passou voando na Praia. A noite anterior, por mais perfeita que tivesse sido, acabara. Ele tinha o número de Duda, mas a cobertura naquele lugar estava péssima. Celulares incomunicáveis. Não conseguiu falar com ela, nem ao menos ouvir sua voz. Sentiu-se angustiado. Pensava em como poderia ir embora e não encontrar aquela menina de novo… E sentiu-se mais angustiado ainda.

Saiu da pousada rumo a beira mar. Passeou pela faixa de areia, de olhos bem abertos mas não a encontrou. Celular fora de área ainda. A manhã ensolarada virou tarde e nada, nem uma pista de como encontrá-la.

A noite chegou e com ela mais uma festa, que não teve a menor graça pois Duda não estava lá. Fim de festa, frustração. Paulo retornou extremamente bêbado para a pousada e foi direto para cama. Adormeceu em dois segundos e sonhou como aquela noite realmente deveria ter sido. Imaginou a vida como um filme de romance com final feliz. Uma pena que coisas assim não existam.

No outro dia Paulo acordou tarde, de ressaca e ligeiramente atrasado para seu vôo de volta para São Paulo. Iria voltar pra casa mas seu coração ficaria na Praia, estava arrasado por não ter encontrado Duda de novo. Não deu nem para se despedir. Arrumou suas coisas bem rápido, almoçou e aeroporto.

Já no caminho de volta para São Paulo sua lembrança o jogou novamente para aquele dia que conhecera A Garota. Sorrisinho no rosto. Tinha valido a pena. Tentaria manter contato quando chegasse à casa, porque, pensava, todas as pessoas que entram em nossas vidas e nos marcam de alguma forma não podem cair no baú empoeirado do esquecimento. As especiais precisam permanecer vivas na realidade, principalmente nesses dias, onde tudo começa e termina tão rápido. Tudo o que marca merece ser celebrado e mantido vivo. Continuava com aquele sorrisinho besta no rosto, observando as nuvens pela janela do avião e em todas só via o rosto de Duda, seu sorriso, o modo como mexia o cabelo, seu olhar…

Dessa vez, ele pensou, não iria deixar acontecer como das outras vezes em que passara por situação semelhante. Não iria permitir que “efeito Novalgina” tomasse conta, como ele costumava dizer. O tal “Efeito Novalgina” era a expressão que ele utilizava para descrever quando algo começava doce e logo se tornava insuportavelmente amargo, assim como o remédio. Mas dessa vez não. Dessa vez eram só sorrisos. Dessa vez ele iria atrás de Maria Eduarda. Não a esqueceria!

Mas o presente do seu amigo João, esse ele esqueceu mesmo e nunca mais lembrou.

Escrevi esse texto para um trabalho da pós graduação. O objetivo era criar uma narrativa que abordasse a questão da linguagem não-verbal.
Fiz do meu jeito e achei que ficou legal. Mais um post sem imagens e desenhos, mas logo eles voltam.

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Fala que Eu te Escuto

José Luis era o que poderia ser chamado de funcionário exemplar. De verdade. Ele costumava ganhar todos os prêmios, méritos, destaques do mês ou qualquer outra forma de bonificação que a empresa fornecesse. O motivo de seu grande êxito profissional, talvez, se deva ao seu esforço sobre-humano perante as tarefas do escritório. Ele fazia o impossível para sempre estar um passo a frente, de forma que sua limitação passasse desapercebida…

Nosso amigo é funcionário da Chavez&Chavez, companhia fabricante dos mais variados tipos de papel. No passado, uma gigante do setor. Hoje, apenas uma sombra do que já foi um dia, tendo que encarar a pior crise da história da indústria gráfica.

Era mais uma segunda-feira como todas as outras. Seis horas e trinta minutos, em ponto o despertador tocou. José Luis abriu os olhos, espreguiçou-se e foi tomar banho. Barba feita, banho e café tomado, estava pronto para mais um dia de trabalho.

Costumava sempre começar o dia cumprimentando todos do seu setor (ele era chefe do departamento de papéis especiais). Fazia a linha “portas abertas” com seus comandados. Todos tinham liberdade para conversar com ele a qualquer momento. José Luis passava pelo setor para saber como estava indo o trabalho do pessoal quando Afonso – um integrante da sua equipe – perguntou:
– Zé, ontem eu não consegui fechar com aquele cliente grande. O cara simplesmente não queria comprar nada… falou que era a crise… Bom, hoje eu vou tentar com um cliente menor para a gente não ficar – muito – no prejuízo, ok?
José ponderou e fez um sinal de positivo para Afonso. A medida que o dia ia passando, outros funcionários pediam sua ajuda. Ele acenava, mandava esperar, dava “positivos” e “negativos” quando achava que devia dar, mandava voltar…

Muito trabalho, muita crise, pouco resultado. As coisas não estavam fáceis para ele. Mas era um sujeito positivo, sempre tudo dava certo no final.
A noite caíra e o José estava se sentindo um trapo, exausto. Faltava pouco para o fim do expediente quando Carlos – seu chefe na empresa – o chamou para ir a sua sala.
José Luis já estava acostumado. Já fora àquela sala diversas vezes. Já imaginava o que iria acontecer: era chegado o momento de ele receber mais uma bonificação, mais uma congratulação pelo seu desempenho. Sim, pois afinal, mesmo atravessando tempos difíceis, (olha a crise!) cheios de contratempos, com seu setor dando mais prejuízo do que qualquer outra coisa, Carlos veria o quão esforçado e empenhado o Zé estava sendo.

Ora bolas, não poderia esperar outra coisa do Carlinhos, aquele boa praça, não era mesmo?

Trinta minutos se passaram quando o Zé saiu da sala do Carlinhos. Mas alguma coisa estava errada. Ele estava com um semblante arrasado (o Zé, não o Carlinhos), de ombros caídos. Completamente abatido.

Afonso, que sempre falava pelos cotovelos, perguntou:
– E aí, Zé?! Tá tudo bem? Conseguiu mais uma condecoração? Nossa equipe tá mandando muito bem, né?! Tá certo que ultimamente só temos dado prejuízo à companhia, mas isso vai mudar! A gente sempre trabalhou sup…

José tinha feito um sinal pro seu colega parar de falar. Em seguida, como querendo explicar o que havia acontecido na sala de Carlos, fez um gesto como se cortasse a própria garganta e, em seguida, um sinal politicamente incorreto que envolvia bater uma das mãos aberta na outra fechada, repetidas vezes,  apontando para todos da sua equipe.

A ficha caiu para o “Afonsinho”.
Estavam no olho da rua, sem eira nem beira.
José Luis arrumou todas as suas coisas e saiu. Saiu muito triste e sem olhar para trás. Saiu da companhia assim como entrou, sem dizer uma só palavra.

Também pudera, o pobre coitado era mudo.