Escrevi esse texto para um trabalho da pós graduação. O objetivo era criar uma narrativa que abordasse a questão da linguagem não-verbal.
Fiz do meu jeito e achei que ficou legal. Mais um post sem imagens e desenhos, mas logo eles voltam.

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Fala que Eu te Escuto

José Luis era o que poderia ser chamado de funcionário exemplar. De verdade. Ele costumava ganhar todos os prêmios, méritos, destaques do mês ou qualquer outra forma de bonificação que a empresa fornecesse. O motivo de seu grande êxito profissional, talvez, se deva ao seu esforço sobre-humano perante as tarefas do escritório. Ele fazia o impossível para sempre estar um passo a frente, de forma que sua limitação passasse desapercebida…

Nosso amigo é funcionário da Chavez&Chavez, companhia fabricante dos mais variados tipos de papel. No passado, uma gigante do setor. Hoje, apenas uma sombra do que já foi um dia, tendo que encarar a pior crise da história da indústria gráfica.

Era mais uma segunda-feira como todas as outras. Seis horas e trinta minutos, em ponto o despertador tocou. José Luis abriu os olhos, espreguiçou-se e foi tomar banho. Barba feita, banho e café tomado, estava pronto para mais um dia de trabalho.

Costumava sempre começar o dia cumprimentando todos do seu setor (ele era chefe do departamento de papéis especiais). Fazia a linha “portas abertas” com seus comandados. Todos tinham liberdade para conversar com ele a qualquer momento. José Luis passava pelo setor para saber como estava indo o trabalho do pessoal quando Afonso – um integrante da sua equipe – perguntou:
– Zé, ontem eu não consegui fechar com aquele cliente grande. O cara simplesmente não queria comprar nada… falou que era a crise… Bom, hoje eu vou tentar com um cliente menor para a gente não ficar – muito – no prejuízo, ok?
José ponderou e fez um sinal de positivo para Afonso. A medida que o dia ia passando, outros funcionários pediam sua ajuda. Ele acenava, mandava esperar, dava “positivos” e “negativos” quando achava que devia dar, mandava voltar…

Muito trabalho, muita crise, pouco resultado. As coisas não estavam fáceis para ele. Mas era um sujeito positivo, sempre tudo dava certo no final.
A noite caíra e o José estava se sentindo um trapo, exausto. Faltava pouco para o fim do expediente quando Carlos – seu chefe na empresa – o chamou para ir a sua sala.
José Luis já estava acostumado. Já fora àquela sala diversas vezes. Já imaginava o que iria acontecer: era chegado o momento de ele receber mais uma bonificação, mais uma congratulação pelo seu desempenho. Sim, pois afinal, mesmo atravessando tempos difíceis, (olha a crise!) cheios de contratempos, com seu setor dando mais prejuízo do que qualquer outra coisa, Carlos veria o quão esforçado e empenhado o Zé estava sendo.

Ora bolas, não poderia esperar outra coisa do Carlinhos, aquele boa praça, não era mesmo?

Trinta minutos se passaram quando o Zé saiu da sala do Carlinhos. Mas alguma coisa estava errada. Ele estava com um semblante arrasado (o Zé, não o Carlinhos), de ombros caídos. Completamente abatido.

Afonso, que sempre falava pelos cotovelos, perguntou:
– E aí, Zé?! Tá tudo bem? Conseguiu mais uma condecoração? Nossa equipe tá mandando muito bem, né?! Tá certo que ultimamente só temos dado prejuízo à companhia, mas isso vai mudar! A gente sempre trabalhou sup…

José tinha feito um sinal pro seu colega parar de falar. Em seguida, como querendo explicar o que havia acontecido na sala de Carlos, fez um gesto como se cortasse a própria garganta e, em seguida, um sinal politicamente incorreto que envolvia bater uma das mãos aberta na outra fechada, repetidas vezes,  apontando para todos da sua equipe.

A ficha caiu para o “Afonsinho”.
Estavam no olho da rua, sem eira nem beira.
José Luis arrumou todas as suas coisas e saiu. Saiu muito triste e sem olhar para trás. Saiu da companhia assim como entrou, sem dizer uma só palavra.

Também pudera, o pobre coitado era mudo.

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