Desde o começo dos tempos, desde que o mundo é mundo o não estava lá. Do meteoro dando sua negativa evolutiva para os dinossauros aos cientistas com suas frustrações e burros n’água em suas pesquisas, o não é o que faz a roda girar.
E para nós, meros mortais, a coisa não é diferente.

A verdade é essa, e apesar do não ser aquilo que nos move e faz seguir em frente ninguém gosta de recebê-lo. Ele sempre costuma vir em uma roupagem estranha, em um traje que não é adequado à festa que você está.

Existem vários tipos de não. O incisivo, aquele que não nos dá chance de argumentar, nem de fazer nada para mudar seja lá o que quer que tenha acontecido. É simplesmente não e pronto. Quando você tenta retrucar, percebe que quanto mais mexer, mais vai feder, e só vai piorar a situação. Isso no campo amoroso é um desastre, puro azedume. É, todos passam por isso. Você não está só!

Mas sem dúvida, o mais dolorido dos nãos é aquele que aparenta ser sim. Quando mexe com os sentimentos da gente, principalmente. Ele consegue ultrapassar a barreira da frustração, alcançando sentimentos tão amargos que nem sequer existem nomes para descrevê-los. Faz a alma sangrar.

Você se pergunta o motivo disso estar acontecendo. Pode ser aquela garota incrível que você conheceu numa noite inesperada, e logo você, que não costuma se envolver, percebe-se numa situação completamente desesperadora querendo decifrar aquela estranha-perfeita, que mexe com seus sentidos e sentimentos de uma forma que explicação nenhuma pode dizer. E, pensando bem, nem de explicação precisa. Talvez esse seja o charme, o encanto da coisa.

Os olhares se cruzam e tudo faz sentido uma vez mais. E você está lá, perdidamente apaixonado por um ponto de interrogação que só te faz sorrir, que só te faz bem. Tudo mais está de ponta cabeça, o dentro está fora, e só o que você deseja na vida é um pouco mais daquilo. Seu cérebro está encharcado em dopamina. Inebriado, viciado. Deve ser pior que droga. Pior que droga… Uma coisa tão boa se tornar pior que droga. Como pode? Essa resposta acho que ninguém tem. É meio coisa de filme, vai saber…
E de repente, como num passe de mágica, tudo termina. Você fez contato, conheceu a ponta do iceberg mas não houve a oportunidade de ir a fundo. Logo quando você achava que valeria à pena, que dessa vez era a vez, tudo acaba. A sua linda e ainda misteriosa garota desaparece entre sombras e fumaça. Entrou na sua vida com o pé na porta e saiu sem dizer nada. Caiu o pano, finito.

Seus conhecidos dizem que é orgulho da sua parte, por não correr atrás, deixar as coisas passarem muito fácil, sem insistir, blá blá blá… Sei como é, eles falam besteira. Eu te entendo! Orgulho não é a melhor definição para a atitude que define sua postura diante dos nãos. Não. Talvez bom-senso seja a palavra que eles procuram. Mas o coração não tem bom senso, ele não entende orgulho, tempo e outras convenções. Tudo está de ponta cabeça, dentro é fora, lembra? Aí o que sobra, o que entra em ação é o doloroso processo de negação, onde a cabeça procura sobrepujar os sentimentos, evitando batalhas perdidas, murro em ponta de faca, essas coisas. O que não é pra ser, não é pra ser e pronto, ponto final. Uma vez mais você levanta a vela, iça a âncora e toca o barco, rumando pelo tortuoso mar revolto que se tornou sua vida, mas sabendo que deve seguir em frente. E sabe também que calmaria nunca levou ninguém a lugar nenhum. Mas às vezes, nas suas navegações em noites de luas azuis, você se pergunta “E se?”, “Até quando devo navegar?” “Até naufragar ou procurar um porto seguro?” Dúvidas, dúvidas…

A realidade é dura, mas também pode ser agradável. Existem muitas pessoas por aí, e você com certeza conhece um punhado delas que vivem cem por cento com os pés no chão, que suprimem toda a fantasia das suas existências e se esquecem de como isso pode ser bom.
Perdem, de propósito, a inocência e a magia das suas vidas (isso é assunto para um outro texto) com o objetivo de não se ferir mais. Gente pragmática, “prática”, que já não tem mais o prazer de se permitir, baixar a guarda e se expor. Como se expor àquela garota incrível que você conheceu na noite inesperada, que parece ser tão íntima e você não sabe nem explicar o porquê. Que não tem mais a capacidade de se apaixonar à primeira vista, da forma mais pura que existe. Tudo bem, entendo que não dá pra viver num mundo de faz de contas, na “Disney do cotidiano”, mas o equilíbrio entre realidade e fantasia é que faz a vida ter graça e encanto, que tornam as coisas corriqueiras em especiais. Ótimos exemplos podem ser lembrados da sua infância, época em que tudo é aprendizado, tudo é magnífico. “Tudo é bonito e encantado quando se é criança e está apaixonado”.
Nunca deixar essa parte sumir da vida que é o grande desafio, mesmo nas circunstâncias mais adversas.

Todos odeiam ouvir nãos. Todos detestam perder. Mas a maneira como você lida com isso é que define todo o resto. Você odeia se sentir como está se sentindo. O gosto amargo ainda está lá. Mas vai passar.

Só que, por enquanto, você ainda não sabe disso.